Josina Machel

Muito antes da Organização das Nações Unidas (ONU) instituir o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, em 1975, Moçambique, ainda colônia, designou o 7 de Abril como Dia da Mulher Moçambicana.

Você vai saber a origem desta celebração no texto abaixo, que é uma edição do artigo “A morte de Josina Machel”, da professora Isabel Maria Casimiro, publicado no livro “As voltas do passado” (Tinta da China, Lisboa:2018), coletânea organizada por Miguel Cardina e Bruno Sena Martins.

 

 

 

Embora sejam muito eficientes no campo militar, a contribuição das mulheres tem-se revelado mais no campo político (…) A este respeito , nós salientamos  que o sucesso da revolução depende dos esforços combinados de todos nós, ninguém pode ser dispensado, e assim o papel tradicionalmente  ´passivo´ da mulher  deve mudar, de modo que as  suas capacidades possam ser utilizadas ao serviço da revolução. As mulheres são encorajadas a falar, a exprimirem sua opinião nas reuniões, a participar nos comitês, etc.. Aqui nós somos geralmente confrontadas com a tarefa difícil de lutar contra velhos preconceitos que dizem que as funções das mulheres são apenas as de cozinhar, tomar conta da casa, dos filhos e pouco mais. (Josina Machel)

 

Josina Machel faleceu na madrugada de 7 de abril de 1971, na Tanzânia, pouco menos de dois anos depois de casar com Samora Moisés Machel. Um mês antes, havia viajado para a província de Cabo Delgado com um programa na área de dos Assuntos Sociais da Mulher, da qual era responsável. Ficou bastante doente durante a missão e, apesar de ter recusado, viu-se obrigada a aceitar a transferência para um hospital na Tanzânia. Tinha o fígado praticamente desfeito.

 

Em dezembro de 1972, o Comité Central da Frelimo proclamou o 7 de abril como Dia da Mulher Moçambicana. É a primeira mulher heroina na luta armada de libertação nacional em Moçambique, e também depois da independência, proclama em 25 de junho de 1975.

 

Josina Abiatar Muthemba nasceu em Inhambane, onde seus pais se encontravam em missão de serviço, a 10 de agosto de 1945. Pertencia a uma família de resistentes e nacionalistas contra o colonial-fascismo português. Um avô combateu durante a Primeira Guerra Mundial contra o imperialismo alemão, e seu tio Mateus Sansão Muthemba foi assassinado em Dar-es-Salam, em 1968, durante um dos períodos conturbados da luta pela libertação nacional.

 

Acompanhando as transferências dos pais por motivos profissionais, Josina estudou em Pemba, Manica e Sofala. Continuou seus estudos em Lourenço Marques (atual Maputo). Foi membro do Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique (NESAMO), tendo participado em conjunto com companheiros em acções clandestinas diversas contra o colonialismo.

 

Josina Machel chegou em Dar-es-Salam em julho de 1965 para juntar-se à Frelimo, depois de duas tentativas falhadas que a levaram a ser presa pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, polícia política portuguesa entre 1945 e 1969, responsável pela repressão de todas as formas de oposição ao regime político vigente).

 

Na primeira tentativa foi detida em Vitoria Falls (Zimbabwe), depois de denúncias. Presa, foi submetida a pressões e ameaças durante meses, tendo sido prometida uma bolsa de estudos em Portugal. Após cerca de dois anos de encarceramento, Josina foi libertada.

 

A segunda tentativa, com diversos companheiros, entre os quais uma irmã, através da Swazilândia (atual Eswatini) e a caminho da África do Sul, teve lugar em 1965. O grupo foi detido e permaneceu 13 dias na prisão. Foi o primeiro presidente da Frelimo, Eduardo Mondlane, quem, através do Comité das Nações Unidos de Apoio aos Refugiados, conseguiu que todo o grupo fosse levado para a Tanzânia.

 

Uma vez na Tanzânia e integrada na Frelimo, Josina Machel seguiu para Songea (capital da região de Ruvuma, no sudoeste da Tanzânia), em agosto de 1965, tendo trabalhado com um grupo de mulheres do Niassa (província situada no extremo noroeste de Moçambique), algumas das quais integrantes do 1º grupo do Destacamento Feminino (DF). Nas palavras de um membro do DF:

 

Josina nos mobilizava, e dizia que todos vamos à guerra porque levamos porrada sem saber, então muitas mulheres ficaram voluntárias. Ela via nosso sofrimento e dava coragem às mulheres (Entrevista a Lúcia Bala, Niassa, 17 de setembro de 2017)

 

Realizou treinos militares em 1968. Em abril de 1969, foi designada pelo Comité Central da Frelimo chefe da secção dos Assuntos Sociais da Mulher, no Departamento  das Relações Exteriores. Casou-se com o então chefe do Departamento de Defesa da Frelimo, Samora Machel, em 4 de maio de 1969. Um ano depois, em maio de 1970, Samora assumiria o argo de presidente da Frelimo, após o assassinato de Eduardo Mondlane, em 3 de fevereiro de 1969.

 

No período entre 1965 a 1971, Josina Machel tornou-se especialmente  conhecida pelas combatentes do DF e militantes ligadas ao trabalho na área social, bem como pelas populações, sobretudo nas províncias de Cabo Delgado e Niassa.

 

Muito bonita e ativa, ela era uma mulher estudiosa, forte e corajosa. Às vezes ela dormia comigo. Tinha de manter contato porque ela é que abriu o infantário de Msawize (província de Niassa), e eu tinha de mandar carta a dizer que aqui falta feijão, farinha, leite, arroz, sal (..) e ela mandava dois carros com aquelas coisas, ou então pessoas saíam com aquilo na cabeça da fronteira até a base militar. Josina podia ser presidente deste país (Entrevista a Helena Baide Momade, DF, Niassa, 15 e 16 de setembro de 2017)

 

Josina é hoje recordada como heroína, impulsionadora do Dia da Mulher Moçambicana. As suas camaradas e militantes recordam sua coragem, ousadia e perseverança, a sua militância  e entrega às causas sociais, à criação e estruturação dos infantários.

 

O Dia da Mulher Moçambicana encerra o Mês da Mulher, que tem início no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.

 

A nossa experiência provou que nós, mulheres, podemos realizar este trabalho de mobilização e educação muito melhor do que os homens, por duas razões. Primeiro é muito mais fácil para nós aproximarmo-nos das outras mulheres, e, segundo, os homens convencem-se mais facilmente do papel importante da mulher quando têm em frente deles mulheres militantes e capazes, que são o exemplo vivo daquilo que elas apregoam. Além disso, as nossas atividades dirigem-se também aos homens, e a presença de mulheres com armas é um elemento muito importante para a mobilização dos homens: eles ficam envergonhados e não se atrevem  a recusar aquilo que as próprias mulheres estão a fazer (Josina Machel)

Parceiros

Fórum Mulher LogoFriedrich Ebert Stiftung LogoLogo Afeto